segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Maria, Infeliz

“Nada” é uma palavra muito melancólica.
Ela acordou mais cedo naquele dia porque tem uma mania terrível de não conseguir dormir antes de dias diferentes. Ela não consegue controlar a própria ansiedade, mas sua alegria é tão absoluta que o cansaço só tem espaço após o tal grande acontecimento.
Não conseguia se lembrar de quando foi a última vez que sentiu aquele frio bom, aquela ansiedade de fazer sorrir, aquela vontade de levantar da cama e correr. Havia tempo não conseguia pensar em nada que a fizesse verdadeiramente alegre. Confessa que no princípio não estava lá tão empolgada, achava a idéia agradável e nada mais.

Como num súbito, tudo muda e ela, se levanta da cama, quebrando seus pensamentos para escolher uma roupa bonita. Há várias roupas bonitas na verdade, e é difícil escolher alguma que sirva, mas ela encontra, por fim.
Ela a retira de dentro do armário delicadamente, com muito cuidado para não amassar. Já é tarde.
Sua desastrada maneira de guardar as coisas amarfanhou aquela roupa e mais outras várias guardadas abaixo dela. Sem medo, ela pega o ferro, que por motivos que não são conhecidos ainda, não se quebra de jeito algum, pois está velho, muito velho. Ela passou o vestido que parecia novo. Há tempos também não se importava com a maneira com qual se vestia. Suas roupas deviam estar todas acabadas.
Finalmente, colocou-a em cima da cadeira, juntou-lhe sapatos e se deitou novamente na cama bagunçada. Esqueceu de apagar a luz. Levantou-se e apagou-a. Fechou os olhos e esperou, esperou que o sono a fizesse dormir e sentiu o cansaço bater em sua porta. O dia amanheceu. Ela olhou o relógio com orgulho por ter dormido durante seis horas. Foi até a cozinha, tomou uma grande caneca de café. E ela nem gosta de café. Voltou ao quarto, arrumou sua cama e sentou-se no sofá para assistir à televisão.
O dia passou como uma flecha. Logo, a hora se aproximava. Pegou o tão importante vestido, vestiu-o após o banho.
Calçou os sapatos mais bonitos que tinha. Sua bolsa e o perfume francês. O cabelo devidamente penteado, para que secasse naturalmente.
O telefone tocou. Ela deixou que tocasse. Atendeu, forçando a voz mais calma que não tinha.
- Alô?
-Alô. – Era ele. Ela não estava surpresa.
-Houve um problema, me desculpe. Eu não sabia que teria que resolver isso hoje, me desculpe. Mesmo. Não poderei ir hoje.
-Ah, claro. Tudo bem. Podemos marcar outro dia?
-Sim, podemos. Eu ligarei.
-Tudo bem. É uma pena.
-É mesmo. Bem, até mais. Beijos
-Até. Beijos.
Ela pôs o telefone no gancho. Foi como se tivessem arrancado aquela ansiedade dela. Aquela vontade de mudar. Foi tudo embora.
Ela tirou o vestido, jogando-o no chão do apartamento, que estava frio mesmo, afinal.
Aquelas roupas de moletom, o cabelo preso por um coque mal feito e o rosto recém lavado, que tirou toda a maquiagem. Sentou-se no sofá de pernas cruzadas, ligou a televisão. Um programa que até devia ser interessante.
Quem sabe.
Não há nada mais triste do que mudar as roupas de sair.
Antes de sair.


Mas foi um desperdício com todo aquele perfume francês.

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